sexta-feira, 22 de março de 2019

O Alto do Pingo de Amor (Inspirado nos romances de cordéis)

O Alto do Pingo de Amor
(Inspirado nos romances de cordéis) 

Num reinado muito distante, localizado bem além dos confins da Terra, existiam duas famílias amigas que viviam muito próximas uma da outra. Eram separadas apenas por um pequeno riacho, considerado a divisa entre suas terras. 

Uma das famílias possuía duas belas filhas. A outra, apenas um filho. E este filho carregava o peso de um grande segredo: ele era encantado! Durante o dia se vestia como um asno, e a noite se transformava em um belo príncipe. Mas ninguém poderia saber do que se passava com o príncipe, era um segredo que o jovem carregava consigo, e que somente poderia ser revelado para a jovem que viesse a se tornar sua esposa. E ainda, o segredo seria revelado somente após o casamento. Nem mesmo sua mãe sabia que o filho era um príncipe. Ela o via apenas como o menininho que ela havia encontrado em uma cesta abandonada na porta de sua casa. Era um grande segredo do qual ninguém sabia senão ele próprio. Somente ele, ao crescer, se recordaria de sua sina. Ele era um príncipe de outro mundo que sofrera a maldição de uma bruxa má, que desejava se casar com ele, mas ele a rejeitou. Ela então o enfeitiçou, fazendo com ele se transformasse em um bebê. Levou-o até a Terra e o abandonou de frente à casa de uma mulher bondosa, que tivesse muito amor no coração para recebê-lo como filho e ama-lo apesar de suas transformações. Logo após a sua maldade, ela assumiu o reinado, matando toda a família do príncipe, assumindo o trono de rainha.

A bruxa má não quis destruí-lo, mas o castigou por ele não amá-la como ela desejava. Ela determinara em sua maldição que, durante o dia ele se pareceria com um asno, e a noite tomaria de volta sua verdadeira aparência. E tão logo se tornasse um jovem, se recordaria de seu reinado e de sua origem de príncipe. E isto seria para ele maior sofrimento, porque não poderia voltar para o seu reinado, a não ser que, uma jovem apaixonada descobrisse o seu encanto. 

A sua aparência se transformaria quando ele começasse a crescer. Durante o dia se pareceria com um asno, e durante as noites tomava de volta sua aparência real de príncipe. 

No entanto, o menino tinha um destino para cumprir, um destino que ninguém jamais imaginaria. Desde que fora transformado em um bebê, o garotinho já carregava consigo o peso deste encanto de uma bruxa má. A mãe adotiva acreditava que ele era apenas um menino normal como qualquer outro, ela não percebia que a noite ele se transformava em um príncipe, cuja beleza era incomparável. Olhar de mãe não identifica certas peculiaridades em seus filhos. 

O fato é que, o rapaz que durante o dia tinha a aparência de um asno, cresceu e desejou se casar. Ele se apaixonou pela filha mais jovem da família que vivia do outro lado do rio, mas não teve a coragem de falar para pais dela. 

A mãe do jovem asno percebendo o seu desejo e já sabendo que nenhuma jovem daquela região iria querer se casar com ele por causa de sua aparência de asno, que era somente durante o dia mas ninguém sabia disso, resolvera conversar com os pais da jovem. Foi até lá e pediu a mão da filha mais velha em casamento para o seu filho. A jovem, mesmo contrariada, acatou o acordo entre as duas famílias. Casar-se-ia com o asno mesmo contra a sua vontade. 

Assim, tudo foi acertado, e os dois se casaram em uma grande cerimônia matutina. 

Porém, logo na primeira noite de núpcias o príncipe ficou viúvo. Sua esposa sofreu um infarto súbito e morreu do coração logo depois que descobriu que o seu marido era o homem mais lindo que ela já havia visto em toda a sua vida. Ao descobrir o grande segredo do asno, a moça não resistiu e morreu. 

Todos ficaram muito tristes com a morte da jovem esposa, menos o jovem asno, é claro! Pois ele não amava aquela jovem, e sim, a sua irmã mais nova. Ninguém sequer desconfiou do que poderia ter acontecido naquela noite. 

Os dias se passaram e novamente, o jovem interessado que estava pela irmã mais jovem de sua finada esposa, procurou sua mãe e lhe pediu para que fosse conversar com os pais dela e lhes pedisse sua mão em casamento para ele. 

A mãe um tanto ainda assustada com a morte de sua primeira nora resolvera então acatar o pedido de seu filho. Foi até aquela família e pediu a mão da outra jovem em casamento para o seu filho asno. Os pais dela, mesmo com muito receio, resolveu dar a filha em casamento para o jovem asno que se dizia estar apaixonado, porque sua filha disse que também o amava, ela não se importava com a sua aparência de asno. 

Dentro de poucos dias foi realizado o segundo casamento do jovem. Novamente a cerimônia se deu pela manhã. Fora uma festa lindíssima e regada de muita alegria, pois o jovem asno estava se casando com a mulher que de fato ele amava. 

Com tamanha felicidade, o asno se casou com sua jovem amada, e já na primeira noite de núpcias, o príncipe se despiu daquela veste horrível que o deixava com a aparência de um asno. Tão logo a jovem esposa o viu, percebeu que seu marido era um lindo príncipe e caiu ainda mais de amores por ele. Já o amava, mas ficou perdidamente enlouquecida de amor pelo marido. Mas o marido pediu-lhe o maior sigilo quanto ao seu segredo. Somente ela, a esposa, poderia conhecer seu segredo, e mais ninguém! Ele já não desejava mais retornar ao seu reinado. Ela nunca deveria dizer a ninguém quem ele era de fato: um príncipe! Se ela o fizesse, o encanto da bruxa o levaria de volta ao seu reinado. Essa era a condição de ele voltar; ter o seu segredo revelado por uma jovem que o amasse profundamente. 

Logo que amanheceu o dia, a jovem, feliz por saber que seu marido era um príncipe encantado, não resistiu e acabou contando a toda a família sobre a beleza do príncipe e sua origem real. 

O príncipe sofreu tão grande decepção com a revelação da esposa, que teve que voltar ao mundo do qual pertencia. Para o seu maior sofrimento, antes de ser transportado para o seu reino encantado, disse estas palavras com muita mágoa, para a jovem esposa: 

- Oh esposa cruel! Você quebrou o meu encanto! Contou a todos o meu segredo! Agora vou ter que ir embora para muito longe! Se quiser algum dia me ver novamente, terá que ir me procurar no Alto do Pingo de Amor. 

E falando isso, aquele jovem asno desapareceu no mesmo instante, e ninguém mais consegui vê-lo. 

A moça entrou em desespero, pois não poderia mais viver sem o seu príncipe. Decidiu imediatamente ir atrás dele, nesse tal “Alto do Pingo de Amor”. 

Logo que o príncipe desaparecera, a moça saiu a sua procura por toda aquela região. Precisava encontrar o lugar para onde ele havia sido transportado. Viajou noites e dias. Visitou todos os cantos da Terra, e nada de encontrar o seu esposo. 

O tempo foi passando, mas ela não desistia nunca de procura-lo. Depois de ter peregrinado por toda a Terra, resolveu ir até a casa da Lua, pra ver se, talvez, fosse lá o reinado do Alto do Pingo de Amor. 

Ao chegar avistou uma casa enorme, muito bonita e totalmente diferente das construções que já havia visto em sua vida. 

Bateu na porta, e uma senhora a atendeu com presteza. Ela então perguntou para aquela senhora se acaso sabia onde ficava o Alto do Pingo de Amor. 

Para sua decepção aquela mulher não sabia, mas lhe pediu para que aguardasse até chegar sua filha, a Lua. Talvez a Lua soubesse onde ficava o tal lugar, pois durante as noites ela viajava por toda a Terra e por outros mundos. Mas antes, precisava saber se ela estava disposta a recebê-la. 

Disse a mãe da Lua: 

- Olha Peregrina, se vista com este casaco e esconda-se detrás desta porta, pois quando a minha filha Lua chega faz um frio enorme! Você poderá não suportar! 

Não demorou muito e a Lua chegou. Sua mãe foi falar-lhe: 

- Minha filha, se viesse aqui uma peregrina, vinda da Terra, você a receberia? 

- Mas é claro que sim minha mãe! A Terra é um lugar muito longe! Portanto eu a receberia sem nenhum problema. 

A senhora então mandou que a jovem moça saísse de detrás da porta e fosse falar com sua filha, a Lua. 

Para tristeza da moça, a Lua também não sabia onde ficava o Alto do Pingo de Amor. Em compensação pela visita, lhe deu uma linda toalha de mesa toda feita em ouro. Seu brilho era tão intenso que poderia clarear todo o ambiente onde ela estivesse estendida. 

A Lua incentivou a peregrina moça a procurar o Sol. Poderia ser que o Sol soubesse onde ficaria esse tal lugar, pois ele conhecia e visitava até o menor canto da Terra – disse a Lua. 

A moça peregrina agradeceu o presente e seguiu viagem. Viajou por dias e noites, passou fome, sede, e frio, e sofreu todo tipo de imprevistos. 

Enfim, depois de muito caminhar e peregrinar, ela chegou à casa do Sol. Também ali fora atendida por uma velha senhora de aparência alegre, e muito simpática, que logo a fez entrar. 

Na casa do Sol a moça peregrina perguntou àquela senhora, se ela sabia onde ficava o Alto do Pingo de Amor. Para sua decepção, ela também não sabia! Mas pediu-lhe que aguardasse seu filho Sol chegar de sua jornada de trabalho. 

- Veja bem - disse a senhora para a peregrina - proteja-se, atrás desta porta, pois o meu filho quando chega tráZ com ele um calor muito grande! Você talvez não o suporte. 

Assim fez a moça conforme lhe fora instruído. Foi para detrás da porta, para esperar a chegada do Sol. 

A jovem tinha muitas esperanças de que o Sol pudesse lhe ajudar a encontrar o seu príncipe encantado, que agora, já não se transformava mais em um asno durante os dias, pois o seu encanto havia sido quebrado quando ela contara para todos quem realmente era o seu marido. Um príncipe de uma beleza tão incomparável, que na Terra nunca houve beleza que se comparasse. 

O Sol finalmente chegou. Parecia que trazia com ele as chamas de uma fornalha ardente. A sala foi tomada por um calor terrível. Foi preciso esperar um pouco até que o clima do ambiente se estabilizasse. 

Tão logo se tornou possível, a mãe do Sol foi lhe falar: 

- Meu filho, se viesse aqui uma peregrina vinda da Terra, você a receberia? 

- Mas é claro que eu a recebo minha mãe! É quase impossível vir alguém da Terra até aqui! Se vier eu recebo com muito prazer! 

A senhora então chamou a moça que estava aguardando atrás da porta para vir falar com o Sol. 

Depois de perguntar ao Sol sobre o reinado, Alto do Pingo de Amor, e o ouvir dizer que também não sabia onde ficava esse lugar, o Sol lhe presenteou com uma linda travessa toda trabalhada em ouro puro e cravejada de pedras preciosas. A travessa brilhava tanto que seria capaz de clarear toda uma casa com o seu brilho. 

O Sol também lhe disse: 

- Procure o meu amigo Vento. Ele anda muito mais do que eu! Tem visitado lugares que eu ainda não fui. Quem sabe o Vento poderá saber onde fica o Alto do Pingo de Amor! 

Mais uma vez, a jovem peregrina não desistiu de buscar o seu marido príncipe. Precisava encontrar o Alto do Pingo de Amor, pois era para lá que seu esposo havia sido transportado quando a magia de seu encanto foi quebrada. 

A jovem sentia tanta tristeza por ter perdido o príncipe, pois ela o amava com todas as suas forças, e não iria desistir de seu grande amor, nem que viesse a morrer de tanto peregrinar em busca dele. 

A peregrina viajou novamente por dias e noites em busca da casa do Vento. Tinha esperanças de que o Vento soubesse lhe indicar o caminho para o Alto do Pingo de Amor! 

Caminhou tanto que já havia perdido grande parte de sua força física. E já quase não suportando mais caminhar, avistou a casa do Vento. 

Ao chegar, encontrou uma velhinha, que alegremente veio ao seu encontro: 

- Peregrina! De onde vens? 

- Oh bondosa senhora! Eu venho da Terra! Estou procurando o meu amado príncipe! 

- Mas aqui não tem nenhum príncipe Peregrina! Aqui neste lugar, vive somente eu e o meu filho Vento! 

- A senhora não sabe onde fica o Alto do Pingo de Amor? 

- Não querida. Eu nunca ouvi falar de tal lugar! 

De tristeza a jovem quase desfaleceu. De seus olhos, já profundos de tanto sofrer a procura de seu amor, brotaram lágrimas, que escorreram através de seu rosto magro e cansado. 

Aquela bondosa senhora teve piedade da moça peregrina, e disse a ela: 

- Mas, Peregrina, você pode esperar o meu filho chegar de sua jornada de trabalho. Talvez ele possa te ajudar! Sabe, o meu filho Vento é incontrolável e desbravador! Onde houver uma brecha, ali ele passa com certeza! Quem sabe ele já tenha passado por este reinado que procuras?! Mas veja bem; se esconda detrás desta porta de ferro, por segurança, pois meu filho quando chega vem derrubando e arrancando tudo que encontra pelo caminho. O meu filho tem uma força incrível, você nem imagina o quanto ele é forte! 

Tão logo o Vento chegou e se acalmou de sua agitação, sua mãe foi lhe falar: 

- Meu filho, se viesse aqui uma peregrina vinda da Terra, você a receberia? 

- Com todo prazer minha mãe! Pois pra chegar aqui é muito difícil! Quem é esta que de tão longe veio? Arriscando-se por caminhos perigosos e distantes? 

A moça então saiu de detrás da porta e foi conversar com o Vento, já lhe perguntando: 

- Amigo Vento, acaso tu sabes dizer-me onde fica o Alto do Pingo de Amor? 

- Alto do Pingo de Amor? É claro que eu sei!! Conheço também toda a história que ali se conta. Acabei de passar por lá! Rodeei todo o Castelo daquele lugar. Lá tem uma rainha muito malvada. Dizem que antigamente, um Rei bondoso ali havia. O Rei um dia morreu de velhice, é claro! Seu único filho, o príncipe herdeiro, depois de várias decepções amorosas, desapareceu de seu reiunado da noite para o dia! Então, tal reinado abandonado foi invadido por uma Rainha muito má! E agora, dizem que, assim, do nada, o tal príncipe voltou! Porém, a tal Rainha má o escravizou e fez dele seu noivo. Estão preparando tudo para o casamento dela com este príncipe que se tornara seu prisioneiro. O casamento se dará em três dias. Passei a poucas horas por lá, e quando passei, fiz a maior bagunça só para passar raiva em uma serva malvada que faz tudo que manda sua rainha má. 

- Por favor, amigo Vento! Me leve até o Alto do Pingo de Amor! Por favor! Este príncipe que se tornou prisioneiro desta rainha má é o meu príncipe! Nós nos casamos e... 

Depois de um breve relato ao Vento, sobre o que acontecera entre ela e o príncipe, o Vento, comovido, decidiu que iria ajudá-la. 

O Vento também a presenteou com um lindo colar de ouro com grandes pedras de brilhantes. O colar era capaz de brilhar a uma distância jamais alcançada por nenhuma outra luz que não fosse à luz do Sol. A joia era mais valiosa que todos os outros presentes que ela havia ganhado da Lua e do Sol. 

O Vento então pediu que a jovem peregrina subisse em suas costas e se segurasse firme. Depois de se certificar que a moça estava segura, o vento a levou ao Alto do Pingo de Amor. 

Já era tarde quando chegaram ao Alto do Pingo de Amor. O Vento a depositou no chão com segurança e despediu-se dela, desejando-lhe boa sorte no reencontro com seu amado. 

A jovem logo avistou a serva má e aproximando-se dela, lhe perguntou sobre o príncipe. 

A serva lhe disse que o príncipe só poderia receber alguém após seu casamento ser consumado com a Rainha. Somente ela, a Rainha, poderia dar-lhe tal permissão. No entanto lhe advertiu que isso seria algo quase impossível, pois ela o mantinha cativo. 

Já escurecia, e mesmo com tanta severidade, a serva má foi até a Rainha e pediu-lhe para deixar que à moça peregrina se acampasse em um velho galinheiro abandonado, que ficava em frente ao castelo. Era ali que ela deveria se instalar para passar a noite. 

A moça peregrina limpou bem aquele lugar sujo, e estendeu nele sua toalha de ouro. 

Não demorou muito e, aquela toalha com seu brilho intenso, clareou tudo à sua volta. A serva má, que observava tudo à distância, do alto de uma janela do castelo, ao ver toda aquela luminosidade causada por uma toalha de ouro, correu assombrada até a sua rainha e lhe disse: 

- Senhora! Senhora! A Peregrina tem uma toalha de ouro que brilha sem igual! Porque a senhora não compra a toalha dela para usa-la em seu casamento com o príncipe? 

- Vai até lá então! Diga a ela que eu pago o preço que ela pedir pela toalha! 

A serva da rainha correu até a peregrina e propôs o negócio, mas a moça com o intento de ver o seu príncipe, teve logo uma ideia: 

- Diga a sua rainha que eu dou a toalha para ela de presente, mas em troca ela terá que me deixar dormir esta noite debaixo da cama do príncipe! 

A serva voltou correndo até a sua rainha e transmitiu-lhe a informação. Pensativa, a rainha não queria ceder, mas a serva astuta teve uma ideia: 

- A senhora pode fazer o negócio com a peregrina, basta dar um chá que seja forte o suficiente para fazer o príncipe dormir um sono pesado! Assim a peregrina não conseguirá nem mesmo conversar com ele! 

- Então vá! Vá logo! Diga à peregrina que eu a deixo dormir debaixo da cama do príncipe esta noite em troca da toalha de ouro. 

A moça peregrina ficou cheia de esperança, pois depois de tanto tempo peregrinando por todos os cantos da Terra, e de ter estado até em outros mundos, depois de ter passado pela casa da Lua e do Sol, pela casa do Vento, agora finalmente, ela tem a chance de reencontrar o seu adorado príncipe. Agora ela poderia reencontrar o amor de sua vida, aquele jovem por quem estava disposta a morrer se fosse preciso. 

O quarto do príncipe era guardado por dois soldados da Rainha, para que ele não fugisse antes do casamento. 

Logo que o príncipe adormeceu, a serva conduziu a peregrina até seu quarto e a deixou se acomodar debaixo da cama. Tão logo a serva saiu do quarto do príncipe, a moça começou a chamar por ele, com os seguintes dizeres: 

- Burrinho! Burrinho! Burrinho! Tu me disseste que se eu quisesse te ver, viesse ao Alto do Pingo de Amor, aqui estou Burrinho, Burrinho! 

Por várias vezes ela o chamara mas ele não acordava, pois estava sedado com o chá que lhe haviam preparado para que dormisse durante toda a noite e não percebesse a presença de sua amada peregrina. 

Por toda a noite a moça chamou por ele, mas de nada adiantou. Antes que o dia amanhecesse totalmente, a serva veio ao quarto, a mando de sua rainha, para conduzir a peregrina para fora. Esta pediu para ficar mais um dia, pois estava se sentindo muito indisposta para ir embora. Foi concedido pela rainha, que ela passasse mais uma noite no reinado. 

O dia se passou muito rápido e por mais que a moça peregrina procurasse ver seu príncipe, de nada adiantaria. Ele estava sendo mantido prisioneiro e não poderia sair de seus aposentos por ordem da Rainha má. 

Ao anoitecer, a peregrina resolveu que usaria sua travessa de ouro. Desembrulhou-a e colocou no chão. Logo clareou tudo em volta do castelo, e mais uma vez a serva má observava da janela todo o movimento no velho galinheiro. Ao ver aquela travessa com brilho enorme, correu até a sua rainha: 

- Senhora! Senhora! A peregrina tem uma travessa de ouro que brilha sem igual! Todo o castelo está iluminado em volta por causa do brilho da tal travessa! Porque a senhora não a compra para usa-la em seu casamento com o príncipe? 

- Vai até lá então! Diga a ela que eu pago o preço que ela pedir pela tal travessa! 

Da mesma forma que fizera com a toalha, a jovem propôs dormir em baixo da cama do príncipe outra noite. Em troca daria de presente a travessa de ouro para a Rainha. 

A Rainha concordou sem nenhum problema, pois tinha mento o mesmo intento da noite anterior; daria o chá sedativo ao príncipe, assim, ele dormiria um sono pesado durante toda a noite e não perceberia a presença da tal peregrina. 

Mais uma noite em baixo da cama do príncipe, e a moça peregrina chamava por seu burrinho desesperadamente. Aquele jovem que agora já não se transformava mais em um asno durante os dias, mas se tornara para sempre aquele belo príncipe que lhe aparecera na primeira noite em que dormiram juntos, logo após o seu casamento como ele. 

O encanto havia sido quebrado, e o príncipe também vivia uma punição por causa do erro de sua amada; tornara prisioneiro da rainha má, e deveria se casar com ela dentro de poucos dias. Viveria no Alto do Pingo de Amor para sempre, sendo marido e escravo de sua própria esposa má. 

Ali debaixo da cama do príncipe, a moça peregrina começou a chamar por seu amor: 

- Burrinho! Burrinho! Burrinho! Tu me disseste que se eu quisesse te ver, viesse ao Alto do Pingo de Amor, aqui estou Burrinho, Burrinho! 

E assim ela o chamou durante toda a noite. Mas seu amor não podia lhe ouvir! Ele estava adormecido devido ao chá que lhe deram para dormir. 

Antes de amanhecer o dia a serva novamente retirou a moça dos aposentos do príncipe, mas os soldados que observavam tudo ficaram desconfiados de toda aquela trama. Também se sentiram comovidos pelos apelos da jovem peregrina. Então esperaram o príncipe acordar e foram até ele, perguntaram se ele acaso estava ouvindo uma voz que o chamava durante toda a noite. 

- O senhor não viu nada estranho em seu quarto e nem ouviu alguém chama-lo durante a noite? 

- Não! Conte-me depressa o que está acontecendo! 

E a pedido do príncipe, os soldados lhe contaram em detalhes o que se passava. 

Após todo o relato dos soldados, o príncipe decidiu que naquela noite fingiria tomar o chá, para ver se ouviria a tal voz debaixo de sua cama. 

A moça peregrina já se sentia muito triste e quase sem esperanças. Agora, só lhe restava o colar de ouro com pedras de brilhantes, presente recebido do amigo Vento. Tentaria despertar seu príncipe pela última vez. Agarrava-se a esta última esperança. 

O dia passou sem nenhuma novidade, e a noite, depois de ter implorado a serva para convencer a rainha a deixa-la partir somente no dia seguinte, a jovem colocou seu colar no pescoço, e logo todo o castelo foi iluminado. O brilho era tão intenso, que adentrava as janelas e portas do castelo clareando tudo, como se fossem os raios do sol. 

A rainha vendo valorosa joia não se conteve, mandou sua serva até a peregrina para propor a compra do colar, custasse o que custasse! Ela o usaria no dia de seu casamento com o príncipe, pois, portadora de uma grande vaidade, desejava ficar radiante de beleza diante dos olhos de todos no reinado. 

A serva cumpriu as ordens de sua rainha: 

- Peregrina! Peregrina! Minha rainha quer comprar este colar seja qual for o valor! 

- Diga a sua rainha que eu dou este colar a ela, mas ela terá que me deixar dormir uma última noite debaixo da cama do príncipe. 

A rainha concordou logo de cara, pois daria o chá ao príncipe como fizera nas duas noites anteriores. Não haveria nenhum problema. Antes que o dia amanhecesse retiraria a peregrina do quarto do príncipe e a mandaria embora do reinado. Nunca mais ela veria o príncipe, assim pensava. 

A serva adentrou o quarto do príncipe com a xícara de chá e entregou para ele beber, mas ele, disfarçando, fez que bebia e o derramou sem que ela percebesse. 

Depois de algum tempo, ao observar que o príncipe parecia estar dormindo, a serva conduziu a moça peregrina para debaixo da cama do príncipe, saindo logo em seguida. 

A moça logo começou a chamar por seu amor: 

- Burrinho! Burrinho! Burrinho! Tu me disseste que se eu quisesse te ver, viesse ao Alto do Pingo de Amor, aqui estou Burrinho, Burrinho! 

A peregrina o chamou por duas vezes. Naquela noite, ele escutou seu chamado desde a primeira vez, mas resolveu aguardar para ter a certeza de que aquela voz era a voz de sua amada que havia se tornado uma peregrina para ir em busca de seu amado. 

- Burrinho! Burrinho! Burrinho! Tu me disseste que se eu quisesse te ver, viesse ao Alto do Pingo de Amor, aqui estou Burrinho, Burrinho! 

Com tamanha felicidade o príncipe saltou-se de seu leito e levantando-se retirou sua amada de debaixo da cama. 

A saudade de ambos era tão grande que se abraçavam e se beijavam entre lágrimas. O príncipe a beijou longamente e disse-lhe que a amava com todo o seu coração. Combinaram de que nunca mais se separariam. Ele então a perdoou por tê-lo desencantado e com isso tê-lo tornado prisioneiro da rainha má. 

Antes de amanhecer o dia a serva malvada veio buscar a peregrina, mas deu de cara com ela nos braços do príncipe. Seu desespero foi tão grande que ao descer as escadas correndo tropeçou e saiu rolando, derrubando também a rainha má que já estava subindo os degraus da escada para ir ver o príncipe. 

As duas não resistiram à queda e morreram. Os soldados que guardavam o príncipe se tornaram seus amigos e súditos. 

O príncipe se tornou o Rei daquele lugar que sempre fora o seu reinado. E sua amada, a jovem peregrina, tornou-se a Rainha. Mandaram buscar suas famílias naquele lugar longínquo da Terra, para viverem com eles no Alto do Pingo de Amor. 


Os dois tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre.


Rozilda Euzebio Costa 

quarta-feira, 20 de março de 2019

Sandoval e Margarete (Um celular entre nós)


Esta história vem apresentar o drama de algumas pessoas em relação à tecnologia e ao modernismo, muito presente nos dias de hoje. De um lado, o desejo de provar as novidades do mundo tecnológico, e de outro, a impossibilidade financeira de realizar este desejo. O desprovimento das condições econômicas necessárias para acompanhar estas novidades do mercado, levam muitos indivíduos a uma grande frustração.

Sandoval era um homem muito trabalhador, há muitos anos trabalhava como servente de pedreiro para uma construtora, casado com Margarete, uma mulher simples e sem muita vaidade, pai de um casal de filhos biológicos, e ainda tutor de uma sobrinha de dez anos, cujo pai era o seu irmão Francisco que trabalhava no campo. Não pagavam aluguel porque o pai de Margarete lhes emprestara uma casa de tábuas em um bairro da periferia, afastado, localizado nas divisas da cidade.

A honestidade era uma qualidade indiscutível em Sandoval, ele trabalhava duro, de sol a sol, para manter a família. Haviam dias que se tornavam muito difíceis para ele, porque a grana realmente ficava escassa. Margarete não tinha um emprego que lhe proporcionasse uma renda, ficava sempre em casa lidando com os afazeres domésticos e cuidando dos filhos. Quando o marido recebia o salário, entregava todo na mão de Margarete e dizia: 

_ Está aí minha véia, pague as contas e compre as coisas que estão faltando em casa, e não esquece da minha buchada de bode! – dizia. É que toda vez que Sandoval recebia seu salário, se dava de presente uma buchada de bode no fim de semana, que a mulher comprava e lhe preparava com os seus temperos especiais. Ele adorava aquele sabor, e tinha aquele momento como sendo um momento muito especial e importante. Também era somente uma vez por mês, porque o seu dinheiro não dava para comer buchada todo final de semana.

Margarete vez ou outra, comprava um vestidinho para ela e para a Clarinha sua filha, comprava também roupas para o marido e para o filho Luís, e nunca se esquecia da sobrinha Lorrany. Claro que as compras sempre eram parceladas em muitas vezes na loja. Comprava no meio do ano para terminar de pagar com o 13º salário do marido. Mas sabe que eles eram felizes mesmo assim! Mesmo com todas as limitações financeiras das quais já estavam acostumados, eles conseguiam achar graça na vida e não viam os desafios da sobrevivência como sendo um peso duro de carregar.

Sandoval não era tão atrasado em relação à tecnologia, ele e sua mulher Margarete tinham um celular pebinha, para quem não sabe o que quer dizer “pebinha”, é uma expressão para descrever um aparelho celular muito simples, que só serve mesmo para fazer ligações e mais nada. Whatsapp? Instagram? Facebook? Nem pensar! Os aparelhos pebinhas não possuem suporte para aplicativos. Sandoval nem se interessava por isso. Nem ele e nem sua mulher. Ambos estavam muito felizes com seu pebinhas. 

Porém, um dia, o amigo de Sandoval, amigo do peito mesmo, o Nandão, que também trabalhava como servente de pedreiro na mesma construtora, comprou um tal celular moderno, que pegava Whatsapp, Instagram, Facebook, fazia fotos e filmagens bonitas por demais. Nandão se atolou de prestações na loja, parcelou o tal celular em doze vezes, com uma prestação muito alta. Mas Nandão não tinha um “pinto para dar água”, ou seja, não era casado, não tinha filhos, e o único gasto extra que ele tinha era uma cesta básica que ele comprava para sua mãe já idosa.

No dia em que Nandão comprou o celular moderno, chegou no trabalho todo cheio das vaidades, exibindo o aparelho para todos os outros colegas trabalhadores. Todo mundo desejou ver de perto o novo celular do colega, aquilo foi um acontecimento extraordinário, só se via as rodinhas de trabalhadores em volta de Nandão. O Mestre de Obras ficou observando aquele alvoroço todo e resolveu dar uns alertas sérios para que a turma voltasse para o trabalho, porque o serviço estava sendo prejudicado com as novidades de Nandão.

A jornada de trabalho findou-se e Sandoval foi para a casa com o celular de Nandão dentro da sua cabeça. Dizia para si mesmo – eu quero um bicho daquele para mim, vou comprar um também, nem que eu tenha que deixar de comer as minhas buchadas, a Margarete também vai ter que fazer umas economias lá em casa. Economizando nos gastos vou poder comprar um celular para mim igual ao do Nandão. – ele estava obcecado pelo celular moderno do colega. 

Depois que chegou em casa tomou um belo banho, jantou um arrozinho bem soltinho que só sua Margarete sabia fazer, com aquela carne de sol frita e umas rodelinhas de tomate. Abriu a geladeira, pegou um copo de água fresca e ficou tomando olhando fixamente para a mulher lavando as louças na pia. O que Sandoval estava pensando? O leitor nem imagina? Sandoval estava pensando em como dizer para a mulher que iria comprar um celular moderno, caro demais para o seu bolso. Ele sabia que Margarete, mulher muito equilibrada, não iria permitir de jeito nenhum. Até porque, Sandoval já estava há mais de três anos com uma janela enorme na boca, faltavam-lhe quatro dentes no meio da arcada dentária superior. Quando sorria largamente, via-se apenas duas presas enormes, uma de cada lado, como se fossem os esteios de uma portão. Isso nunca havia sido problema para ele, pois não era vaidoso, se preocupava mais em colocar a comida na mesa e não deixar seus filhos e sua esposa passarem fome, do que cuidar dos seus dentes.

Mas, depois que Sandoval viu aquele bendito aparelho de Nandão e o que ele fazia, ficou atordoado, desejou mesmo ter um igual para ele. _ Poxa vida, eu mereço! Dou duro no trabalho há anos, e não posso me dar um presente desses?! – dizia para si. 

Chegou a hora de ir para a cama dormir, ele foi na frente, perfumou-se e deitou esperando a esposa vir deitar também. Ele só queria falar do tal celular para ela, mas como já conhecia Margarete, precisava preparar o terreno para ela compreender e não brigar com ele, precisava usar também as palavras certas.

Quando Margarete entrou no quarto, Sandoval, com uma voz melosa, puxou logo assunto com ela:

_ Ô minha véia, mas você tá tão bonita! Não pense que eu não vejo a sua beleza, é que as vezes eu chego cansado demais do serviço e acabado sem ânimo para nada. Minha véia, me diz uma coisa, o que é que você está fazendo que tá ficando cada vez mais linda? Você está mais linda do que quando eu te conheci! É verdade minha flor! – disse Sandoval. Ele estava a adocicar Margarete, que, já conhecendo o marido, questionou-o:

_ Fala logo Sandoval! Eu te conheço. Quando você vem com esse negócio de me elogiar, é porque está querendo me dobrar em alguma coisa. Vamos! Diga logo Homem! O que é que você está querendo me dizer? 

_ Minha flor, eu não posso te elogiar que você já pensa mal de mim! – disse.

_ Imagina Sandoval, eu não estou pensando mal de você, eu só estou dizendo que você está querendo me dizer alguma coisa, e pelo visto eu não vou gostar. – disse Margarete.

_ Está bem Marga, sabe o que é...

_ Hum, o que é Sandoval?

_ Nandão, aquele meu colega lá do trabalho, comprou um celular porreta demais ó! O bicho só falta falar sozinho!

_ E daí? – Margarete fez uma cara já quase adivinhando o que estava a sair da boca de Sandoval.

_ Daí que eu estava pensando se a gente...

_ A gente o que Sandoval?

_ Se a gente não podia comprar um igual! Eu fiquei pensando sabe, eu trabalho tanto, eu mereço ter um celular daqueles minha véia! 

_ Quanto custa esse celular Sandoval?

_ É... bem... Anh...

_ Quanto custa o tal celular Sandoval?

_ Três mil reais. – Disse levantando as sobrancelhas.

_ Você está louco Sandoval? Você está aí todo desdentado, precisando ir no dentista fazer uma ponte fixa para colocar nessa sua janela gigante, e não vai porque o dinheiro que você recebe só dá para as nossas despesas aqui de casa, e você vem me falar em comprar um celular de três mil reais! Você não está raciocinando Sandoval! – Margarete ficou enfurecida com o marido.

_ Droga de vida! – disse Sandoval decepcionado.

_ Droga de vida o quê Sandoval? É a vida que nós temos meu bem! E eu não reclamo, a gente tem que viver de acordo com a realidade e tentar ser feliz com ela! – Margarete sempre muito ponderada.

_ Olha aqui Margarete, você não tem que se importar com os meus dentes, com a minha janela na boca! Se eu que sou o dono da boca desdentada não estou me importando, porque você vai se importar? – disse zangado.

_ Ah meu querido, você é o dono da sua boca, mas na hora de me beijar sou eu que tenho que aguentar beijar um homem banguela.

_ Poxa Margarete, você nunca reclamou dos meus beijos! – disse Sandoval, decepcionado.

_ Nunca reclamei porque sabia que você gastava o dinheiro com coisas úteis, mas para gastar com os supérfluos, aí não dá né meu filho? – disse.

_ Pois agora é que eu vou comprar mesmo! Vou parcelar na loja em doze parcelas, e vou abrir mão de arrumar meus dentes, vou deixar de comer a minha buchada e tomar minha cervejinha, mas vou comprar um celular igual ao do Nandão. E por um ano, não precisa comprar roupas para mim, deixe que eu me viro com as que eu tenho. Amanhã vou na loja para comprar o meu celular.

_ Nossa Sandoval, como você é cabeça dura! Você prefere comprar um celular caro desses do que ir ao dentista e arrumar seus dentes! Deus me livre Sandoval, você não está raciocinando. – disse a mulher, muito decepcionada. 

A discussão parou e no dia seguinte Sandoval cumpriu o que havia dito, chamou Nandão e foi com ele até a loja onde o amigo havia comprado o celular. E como estava com o nome limpo, conseguiu comprar o tal aparelho moderno.

Sandoval saiu da loja se sentindo tão feliz e realizado que resolveu ligar para Margarete, que ainda estava aborrecida com ele, mas ele estava tão radiante de felicidade que as brigas da mulher se tornaram engraçada. Quem olhava aquele homem parado na calçada da rua falando ao celular e dando gargalhadas de felicidade com a sua boca banguela, mostrando uma janela imensa na arcada dentária superior, não compreendia por qual razão um homem prefere adquirir um objeto caríssimo só porque “todo mundo tem um”, e deixa de cuidar da própria saúde física. Era um contraste entre a aparência e a realidade que estava por trás dela. Muitas vezes o que se mostra para a sociedade externa não condiz com o que realmente se vive. 

Ao vencer a primeira prestação do celular Sandoval já se apertou, o dinheiro não deu, houve discussão em casa, porque Sandoval acusava a esposa de não ter economizado nos gastos do supermercado para sobrar o dinheiro de pagar a loja. Margarete, equilibrada como sempre, socorreu o marido, falou com uma amiga sua que trabalhava para uma família de um bairro nobre, e esta deu-lhe uma informação de grande importância, os patrões estavam precisando de um trabalhador para capinar um terreno, e foi aí que Sandoval conseguiu pagar a primeira prestação de seu celular moderno. Tudo bem que ele perdeu a folga de um final de semana, porque teve que fazer este extra, mas pelo menos conseguiu honrar o seu compromisso. Já as próximas prestações, essas iriam trazer novos desafios. E Margarete já estava ficando com a pulga atrás da orelha com Sandoval por causa de um tal de Zap.

Quando se está razoavelmente centrado, com a mente mais no térreo do que no último andar, já chegando na lua, é possível notar uma infinidade de coisas interessantes e até incompreensíveis nos cenários urbanos. E não é à toa que dizem que um bom observador é capaz de aprender muito mais do que aquele que lê com os olhos, mas a mente está a ver navios. Existem pessoas que aprendem muito mais na observância do que alguém lhes ensinando. Aquele ditado que diz que se você não aprende em casa, a vida vai lhe ensinar, vai de encontro a um aprendizado baseado na experiência e na observância do viver.

Nos dias de hoje, dias em que o consumismo vem crescendo de forma assustadora, há uma desigualdade social muito latente. Mas no que tange exclusivamente à tecnologia, o consumismo avançou sinais e derrubou barreiras diversas, inclusive a barreira do bom senso. Uma grande parcela da população mundial deixa de investir em saúde e conforto para adquirir bens de última geração. Os produtos eletrônicos subiram à cabeça das pessoas. Parece que a coisa mais importante é estar sempre competindo na aquisição de coisas modernas, é ter um carro modelo novo e revolucionário, é ter um celular de última geração, ou mesmo, vestir-se com a última tendência da moda porque todo mundo está vestindo.

O consumo consciente ainda é um desafio para o ser humano, e está longe de ser aderido na sociedade.


Rozilda Euzebio Costa
20 de março de 2019

terça-feira, 19 de março de 2019

Cenários Sociais

Cenários Sociais

Diante do vão da desigualdade e da indiferença social,
Existem comunidades inteiras de egos elevados,
Representando modéstias falsas, e orgulhos exacerbados.
Num cenário absurdo, frio de sentimento, e brutal.

Existem dois mundos desiguais que se cruzam sem comunhão,
Neles, multidões nunca se acenam, e quase nunca se tocam,
Estão todos dentro de um panorama de vida real,
Vivendo uma existência sem amor, e sem emoção.

Diante de uma grande aglomeração de vidas humanas, 
Existem numerosos contrastes bastante explícitos,
De um lado, a abundância, o desperdício, e a esperteza desonesta,
E do outro, a doença, a fome, a nudez, e vidas insanas.

Nas personagens reais que atuam nas entrelinhas da vida,
Existe uma fome que grita eloquente nos pobres desvalidos,
Mas ninguém ouve esse grito! Estão todos surdos!
Estão todos mergulhados em seus propósitos, em sua própria lida.

Existem aqueles que não sabem mais o que é o viver,
Eles vegetam no campo árido de seu próprio existir,
Sem nenhuma consciência real, sem nada mais desejar para si,
Da vida que levam, do ar que respiram, vivem sem nada compreender.

Existe ainda uma grande multidão que quer fazer o bem,
Plena de conhecimento, sabe que, um abraço aquece e conforta,
Mas sua resistência ainda é muito maior do que o seu amor,
E o medo de ser afetada pelos sofrimentos do outro, a detém.

Existem tantas sociedades no consumismo inconsciente,
Quanto existe em seu meio aqueles que nada possuem. 
Estão todos juntos, em um mesmo barco, em um mesmo caminho, 
Vivendo de uma mesma vida de altos e baixos, inconsistente.

Diante do espelho exposto na face do irmão,
Ninguém consegue ver a si mesmo, nem se reconhecer como família, 
E todos vivem numa crença preenchida por delírios, 
Numa existência cega, sem sentimentos, sem o calor do coração.


Rozilda Euzebio Costa

domingo, 17 de março de 2019

Um Cão apaixonado


Contar histórias é algo que realmente considero interessante quando a história traz alguma lição de vida ou apresenta algum fato que venha a instigar a curiosidade humana de forma positiva. 



Esta é a história do cão Campeão, um grande vira-lata de pelo escuro e olhos negros, cujo nome era forte, ele tinha um nome de cachorro destemido. Campeão era um cachorro pra lá de admirável, que jamais se recuava diante de um perigo ou de um desafio. 

Engraçado que as pessoas costumam dizer que existe uma diferença muito grande na escolha dos nomes que os humanos dão aos seus cachorros. Dizem que “os pobres”, ou seja, as pessoas menos favorecidas financeiramente, costumam dar nomes aos seus cães tipo; “Piaba”, “Lampreia”, “Campeão”, “Feroz”, “Malhado”, “Pop”, “Leão”, “Foguete”, “Batman”, “Rex”, “Bolinha”, “Farofa” etc. 

Enquanto que, “os ricos”, aqueles que tem um pouco mais de grana, chamam seus cães de; “Zeus”, “Apolo”, “Boris”, “Charlie”, “Laika” “Molly”, e por aí segue a linha. 

No entanto, cachorro é cachorro, e humano é humano, e no final das contas tanto faz a escolha do nome para o seu cachorro, porque chamando tal ou tal, eles serão adoráveis do mesmo jeito, e se mostrarão sempre fiéis e amáveis, colaboradores amigos que ajudam no crescimento humano, ensinando-lhes grande lições de amor. Sim, porque o homem aprende muito com o cão. O cão tem uma amizade fiel e leal. Seja qual for o perigo que o homem venha a enfrentar tendo um cão ao seu lado, este nunca o abandonará. 

Mas o Campeão aqui, o cão vira-lata, entra com a sua história de amor de cão que nos apresenta uma ação em prol de um amor entre dois cães que viviam distantes um do outro. 

Campeão morava na periferia da cidade, quando se apaixonou por uma cadela de um bairro nobre. Mas como Campeão viu essa cadela pela primeira vez? O leitor pode se questionar a respeito. Isso aconteceu num dia em que o dono de Campeão teve que leva-lo a um veterinário, porque ele havia pegado um bando de carrapatos gigantes no seu couro peludo. Nenhum remédio caseiro conseguia dar fim nos tais parasitas. Como o dono de Campeão não tinha dinheiro para pagar um táxi, aliás, até que tinha, mas quando se tem pouco dinheiro, é necessário decidir as prioridades, como e com o que gastá-lo, e seu Raimundo, dono do Campeão, tinha uma carrada de filhos para sustentar. Daí então surgiu a ideia de leva-lo até um veterinário conhecido a pé mesmo. 

Foi durante a volta do veterinário que, passando por uma rua arborizada num bairro nobre de sua cidade, Campeão se deparou com uma linda cadela donzela acocorada atrás das grades que protegiam uma casa de classe média. Por traz do gradeado de ferro estava Lucky, uma cadela malhada, enorme, de pelo limpo e bonito. Lucky estava a contemplar o movimento da rua quando Campeão foi passando, caminhando com o seu dono. Ela logo o notou, e ele também a percebeu de imediato! Foi amor à primeira vista canina! Campeão ficou vidrado na cadela. Seu Raimundo puxava a coleira, e ele não caminhava, foi necessário sair arrastando ele. Campeão queria ficar, queria correr para o gradeado de ferro, para olhar de perto Lucky, com o seu porte de princesa, de deusa do universo canino. 

Seu Raimundo começou a esbravejar com Campeão, pois já era hora do almoço e ainda havia muito o que caminhar até chegarem em casa. _ Anda Campeão! Anda rapaz! Que coisa! Não emperra não, que eu não estou com paciência! Caminha! Não posso parar e esperar a sua boa vontade de caminhar! – dizia seu Raimundo já agitado. Estava ainda muito longe de casa, sentia fome e muito calor. Ele, o seu Raimundo, sem muito senso de percepção, não notara que Campeão estava enamorando-se de Lucky. Com muito esforço conseguiu arrastar o cão para dar continuidade na caminhada para casa. 

Até sumirem na esquina, Campeão olhava para trás sem parar. Mas existe uma coisa muito interessante nos cães, eles farejam o caminho, decoram os cenários, reconhecem o cheiro da estrada, e conseguem caminhar por distâncias enormes sozinhos, refazendo um caminho que os conduz a algum lugar importante para eles. Já vi histórias de pessoas que se mudaram para bairros muito distante dos quais moravam outrora, e dias após a mudança, seus cães desapareceram da nova residência, e quando os procuraram, os encontraram em suas antigas residências. 

Seguindo a lógica de que os cachorros são seres inteligentíssimos e conseguem refazer sozinhos os caminhos distantes pelos quais já passaram em outros momentos, Campeão, no dia seguinte, levantou muito cedo e voltou ao mesmo lugar de onde havia visto os olhos de sua princesa Lucky. Como estava refazendo o trajeto do dia anterior sozinho, sem o seu dono, ele demorou bastante para chegar até a casa de Lucky. 

De frente à casa da cadela Lucky havia um canteiro, onde colocaram uma boa quantidade de areia fina, própria para construção. Havia também uma fileira de árvores que proporcionavam sombras refrescantes ao local. Foi ali, naquela areia fina e fresca, debaixo da sombra de uma árvore, que Campeão se deitou para descansar de sua caminhada e esperar Lucky sair de dentro de casa e vir até o gradeado de ferro para ele cumprimenta-la e contemplar a sua atraente face canina. 

Campeão estava ofegante ainda de sua longa caminhada, a língua quase a arrastar no chão, babas lhe escorriam sem parar pelos cantos da boca, ele sentia muita sede. Não queria sair para procurar água e correr o risco de Lucky sair fora e ele não conseguir vê-la. 

Não demorou muito e logo vem aquela deusa canina, desfilando elegantemente a sua beleza malhada de cinza e preto pela passarela florida que ia do portão de grade até a varanda da casa. Ao vê-la, quase que seu coração teve uma parada cardíaca. Ele não sabia o que fazer, não sabia se levantava e corria até a grade para se apresentar e cheirá-la, ou se, simplesmente contemplava a sua deusa à distância. Arregalou os olhos, parou de ofegar, a língua estabilizou-se e as presas nas laterais se tornaram visíveis, como se ele tivesse sorrindo de felicidade. Quem olhava aquele cachorro olhando fixo para a cadela atrás do gradeado, não tinha nenhuma dúvida de que ele estava sorrindo, e estava apaixonado. Seus olhos brilhavam como dois lagos negros refletindo o luar, seu corpo estremecia com a energia do amor vibrando em suas veias. Uma luz emanava de seu coração tremendamente apaixonado, deixando-o iluminado. 

As horas se passavam e os dois apenas se olhavam a distância com olhares enamorados. Se fosse possível adivinhar os pensamentos de uma cão, certamente se descobriria que os cães também amam intensamente. 

Já quase ao pôr do sol, Campeão pegou o seu caminho de volta para casa, era necessário voltar. Ele era um cão responsável que nunca iria abandonar o seu dono. Havia também outro motivo que o forçava a voltar para casa – a fome! Não havia comido nada o dia inteiro. 

Durante semanas Campeão desaparecia de casa pela manhã e só retornava ao pôr do sol. O caminho para o bairro de Lucky já lhe era muito familiar, e ele já não demorava tanto ao fazer o percurso. E de tanto caminhar, já estava mais resistente, fazia longos percursos correndo, para chegar mais depressa para ver Lucky. Seu Raimundo só faltava enlouquecer procurando por ele todos os dias. Rodava o bairro inteiro e nada. Perguntava para os vizinhos mas ninguém sabia dizer nada sobre os sumiços de Campeão. 

Não se sabe bem o que aconteceu com o cão apaixonado, não se sabe dizer se houve um final feliz para a sua história de amor. A história do vira-lata que se apaixonou por uma cadela com pedigree, acostumada a ter tudo de que necessitava para viver. Mas é certo que uma coisa faltava ao Campeão, que era viver o seu amor com Lucky. Ela o amava, pois, sempre que ele aparecia diante das grades de sua casa, o seu coração estremecia, e ela sentia vontade de fugir daquela prisão e correr livre pela vida com o seu Campeão. 

O amor nasce de um olhar, de um momento de magia. Não se deve deixar perder a magia de um grande amor, porque não acontece sempre. Para alguns ele nunca vem, por isso abrace o amor, receba-o, aceite-o e viva-o com a intensidade que ele merece. Seja forte o suficiente para não deixa-lo partir para sempre. 


Rozilda Euzebio Costa 
17 de março de 2019 
Contos Contemporâneos 2019 


sábado, 16 de março de 2019

O homem com um bigode na bochecha


Lourival, nome fictício, apresenta um fato interessante vivido por um homem que hoje convive muito bem com os seus caracóis na bochecha, e os tem como um tesouro. 

Diga-se de passagem que Lourival era um sujeito até de boa aparência, meia estatura, pele bem clara, cabelos ruivos, e uma esbelteza que lhe permitia sempre sair pelas ruas de “pano passado”, caminhando todo elegante e arrumadinho. Adorava vestir suas camisas com estampa em xadrez, e passar um gel fixador nos cabelos, lambendo-os para traz, salientando-lhe a testa. Mas o que Lourival tinha mesmo de sobra, era um olhar de menino pidão. Sabe aquele olhar que te deixa com vontade de colocar a pessoa no colo e cobrir de cafuné? Então, Lourival tinha esse olhar que fazia as garotas se enamorarem dele, mas isso antes daquele sinal enorme de nascença em sua bochecha esquerda começar a crescer pelos. Quando as garotas debruçavam seus olhos nos olhos dele era fatal... pimba! Já estava no papo. Ele estava sempre rodeado de garotas querendo mimá-lo e cuidar dele por causa daquele olhar caído e pidão, com jeito de rapaz carente. 

Quando Lourival ainda era apenas um adolescente, não se notava nada de diferente nele, exceto que ele já tinha esse olhar que mendigava carinho. Aqueles olhos meio tortinhos e bem humildes, como dois sóis suaves, levemente se pondo no horizonte. 

Conforme ele foi se tornando um adulto, foi ganhando as formas concretas de um homem maduro, algo misterioso começou a ser percebido por ele. Não lhe cresciam os pelos da barba e do bigode, o que ele muito esperava, já que todo homem tem barba e bigode. E isso era uma das coisas que ele mais queria que acontecesse, pois um de seus grandes sonhos era justamente poder fazer a barba como o seu pai fazia. Para ele, se tornar um homem era ter uma barba e um bigode para fazer e se apresentar para os amigos como um homem já formado. 

Passaram-se dias, meses, anos, e nada de surgir pelos no seu rosto, exceto aquela, ainda pequena protuberância cheia de pelos em sua bochecha esquerda, coisa que lhe incomodava um pouco, mas as pessoas lhe diziam que ele não podia mexer nela porque era um sinal de nascença em seu rosto. – Mas como sinal de nascença! Logo no meu rosto! Vou ter que conviver com isso toda a minha vida?! – questionava-se encabulado. 

Todas as vezes que Lourival ia para algum lugar com os amigos era sempre uma algazarra, porque aquela protuberância já cheia de pelos nunca passava despercebido. E mais, sempre que ia a alguma boate e dançava com as moças, tinha que fazer um imenso relatório para elas explicando sobre o seu “sinal de nascença”. Ele até que tentava dançar sem colar o rosto no rosto das garotas, mas as garotas se sentiam muito atraídas por ele por causa daquele seu olhar, e queriam mesmo mera colar nele, dançando bem agarradinho nele. Lourival colava seu lado direito no rosto das moças na hora da dança, mas elas acabavam virando o rosto para o lado esquerdo do seu, ai era fatal, a dança parava e a moça lhe perguntava com espanto e curiosidade do que se tratava aquilo que estava a fazer cócegas no seu rosto. Lá ia ele fazer um relatório sobre o seu sinal de nascença peludo do lado esquerdo do rosto, o qual ele não podia tirar... 

O sinal de Lourival não era uma coisa pequenina que se podia disfarçar, até foi quando ele era ainda criança, mas depois que se tornou um adulto, aquele sinal havia ganhado o tamanho e o formato de um bigode. E cada dia que se passava ele crescia um pouco mais. Os pelos começaram a crescer e a ganhar maior espessura com o passar do tempo. 

O olhar de Lourival que prendia as garotas era vencido na queda de braço pelo seu bigode na bochecha do lado esquerdo, pois as garotas logo que notavam aquele monte de pelos na bochecha dele com o formato de um bigode, logo caiam fora, deixando ele sozinho com o seu drama. É, porque até então aquele monte de pelo na sua bochecha estava a se tornar um drama enorme para ele, pois no restante da face não nascia mais nenhum pelo, nadinha mesmo, nem barba, nem o bigode sobre o lábio superior, seu rosto estava liso como bunda de bebê. 

Já beirando os trinta anos de idade, o homem com o bigode na bochecha decidiu procurar um especialista. Queria saber porque não lhe cresciam barba ebigode normal como todo homem tinha. E também queria saber e entender porque só houvera crescido pelo naquele sinal bem no meio da bochecha, porque havia nascido aquele tanto de pelo! 

O médico fez todos os exames possíveis em Lourival mas nada detectou, mesmo assim lhe receitou alguns medicamentos para ver se conseguia fazer nascerem o seus pelos da barba e do bigode. E quanto ao bigodinho da bochecha dele, o médico o aconselhou a raspar. 

Lourival tomou todas as medicações recomendadas pelo médico, foram quase três meses seguindo regularmente as recomendações médicas, e nada! Ele não nascera como os outros homens, teria que se acostumar a ter o rosto quase lisinho. Poderia raspar a protuberância de pelos de sua bochecha esquerda como quem faz a barba regularmente, mas decidiu que não. Não iria tirar os únicos pelos do seu rosto. 

Algum tempo se passou e Lourival ainda não havia encontrado o seu verdadeiro amor. Aquelas garotas da sua adolescência foram se afastando uma a uma. Ele foi adquirindo um trauma com elas por causa do seu bigode na bochecha. Ele nunca tinha a coragem de raspar o sinal de nascença de sua face. Os pelos do bigode extra na bochecha esquerda já haviam crescido o suficiente para fazer três pequenas ondas encaracoladas. Ficavam pendurados no seu rosto. 

No dia que ele finalmente decidiu que iria raspar os pelos, um amigo lhe convidou para ir a uma concessionária de automóveis para fazer um test drive em um novo modelo de veículo que havia acabado de chegar. Ele então aceitou o convite e foi com o seu bigode encaracolado do lado esquerdo da face. Era já o meio da tarde. Os dois chegaram na concessionária e uma jovem bela e muito simpática veio atendê-los prontamente. 

Enquanto o amigo fazia seu test drive, a jovem puxou uma longa conversa com Lourival, ela não tirava os olhos daquele homem com o bigode na bochecha. E melhor, ela parecia se simpatizar muito com aqueles caracóis na bochecha dele. Lourival já estava até ficando envergonhado. Ele muito tímido, e quando alguém encarava o seu bigode na lateral então, ele ficava ainda mais tímido e acanhado. E de tanto ela olhar, ele, aborrecido pensou consigo – vou tirar essa coisa que só me faz passar vergonha! – e foi ficando cada vez mais com as faces ruborizadas por causa do olhar insistente da garota em seu sinal de nascença. 

Aquela jovem parecia estar destinada a Lourival, os dois eram almas gêmeas, nasceram um para o outro. Sabe quando dois olhares se encontram e se prendem num único pensamento? Pois é, os dois pares de olhos já estavam ligados desde o primeiro olhar. A jovem não resistiu e perguntou a ele se podia tocar nos pelos encaracolados e ruivos da sua bochecha. Ele só balançou a cabeça num consentimento mudo. Ela então tocou os caracóis do seu bigode extra, e num ímpeto, começou a enrolar a cachopa de cabelo no dedo, modelando num único caracol. Não deu outra, Lourival se apaixonou perdidamente pela jovem e ela por ele. 

Seis meses depois, Lourival já estava casado e feliz com o seu sinal de nascença, e nem pensava mais em raspá-lo, pois adorava sentir os dedos de sua mulher modelando os caracóis do seu bigode da bochecha. 

Certamente é natural que os homens tenham bigodes sobre o lábio superior, mas de vez em quando pode acontecer de algo não sair conforme o ritmo natural das coisas. A natureza é misteriosa, e vez ou outra faz algo diferente para impressionar. 

O sinal de nascença de Lourival tinha mesmo o formato de um bigode, por isso as pessoas o estravam. No entanto, como a composição humana é cheia de mistérios também, tantas vezes acontecem coisas que vão muito além da compreensão do indivíduo. Em alguns casos, não há quem possa esclarecer com uma definição natural e aceitável alguma formação que a natureza compõe. 

O “bigode na bochecha” de Lourival, hoje já está todo grisalho e imenso, tão grande que os caracóis já dão muitas voltas. Hora e outra se pode notar ele os enrolando no dedo apontador. Chega a chamar mesmo a atenção de quem está por perto. 

Conviva bem com suas diferenças, pois todas as diferentes composições humanas possui o seu lugar no mundo, e nada é igual. A natureza define suas próprias características sem pedir consentimento a ninguém. 


Rozilda Euzebio Costa 
15.03.2019 
Coletânea de Contos Contemporâneos 2019

sexta-feira, 15 de março de 2019

O homem que só se importava consigo mesmo


Olá! 

Meu nome é... Bom, o meu nome não importa. Eu tenho 50 anos de idade e moro sozinho em minha nobre mansão que fica de frente para um mar majestoso, exuberante e incrivelmente lindo. Suas águas são tão azuis que às vezes penso se não é o próprio céu que mudou de lugar. 
Sou o exemplo de um homem que dedicou a sua vida ao trabalho e aos prazeres do mundo. Um homem que buscou acima de qualquer coisa na vida, uma realização profissional e status diante da sociedade. Na verdade eu estou neste momento sozinho, sentado a meditar sobre o que realmente tem valor nesta vida. 

Durante muitos anos da minha vida me deliciei com o que o mundo me oferecia de prazer, tive muitas mulheres lindas e maravilhosas que diziam me amar, mas nunca fui fiel a nenhuma delas, e pra dizer a verdade eu brincava com os sentimentos delas, não me preocupava em saber se elas sofriam por minha causa, pelas malandragens que eu aprontava com elas. 

No entanto, o tempo passa, e a gente não percebe isso de imediato, não percebe que estamos envelhecendo, eu não percebia que estava envelhecendo e as minhas forças estavam se esgotando com o passar dos anos em minha vida. Só percebi isso quando notei que as belas garotas estavam se afastando de mim, os amigos das farras não me procuravam mais, e o espelho já não me era tão atraente quanto houvera sido outrora. 

Estou aqui sentado neste banco, como o um réu sendo julgado pela vida, sabendo já da minha sentença – a solidão e dores na minha consciência e por todo o corpo. 

Quem sabe talvez alguma boa alma passe por aqui e se importe comigo, me chame para conversar, e deseje ser meu amigo de verdade. Agora, mais do que nunca, eu desejo ter verdadeiros amigos. 

Na loucura e na correria do dia-a-dia, ninguém tem tempo para nada! Ninguém encontra tempo para as coisas que não dependem do dinheiro. E não foi diferente comigo. Além do mais, passei parte da minha vida correndo atrás de estabilidade financeira, acabei deixando para fazer amigos depois... Isso não tinha a menor importância para mim. 

Meses atrás descobri que estou gravemente doente. O meu médico me disse que estou com uma doença que não tem cura, que já está em estágio avançado, e me restam apenas alguns meses de vida. Isso caiu feito uma bomba na minha cabeça. E estou completamente sozinho sabe! 

Hoje pela manhã, olhando o mar vasto e exuberante no horizonte através da janela da minha mansão, pude observar o voo fascinante de duas gaivotas. Não consegui segurar as minhas lágrimas, e chorei... Chorei como uma criança. Chorei porque, mesmo com toda a fortuna que eu acumulei durante todos esses anos árduos de trabalho, eu não conseguirei realizar com esse dinheiro o sonho de ter a minha saúde restaurada, e nem uma companhia fiel, que me ame de verdade e se importe comigo, uma companhia que não me deixe ser devorado pela silêncio e pela solidão. 

Estou me sentindo abandonado e inútil, sou como um grão de areia no deserto sendo levado pelos ventos fortes da vida. 

É muito difícil enfrentar uma solidão, e ainda estando doente. Saber que não terei ninguém para me dar apoio neste momento, não construí verdadeiras amizades, não construí uma vida plena de amor e companhias leais. Os “amigos” que eu tive antes de ficar velho e doente eram amigos do meu dinheiro, do meu status. Foram-se todos embora. Chega a doer no fundo de minha alma quando penso que dei valor a pessoas que nunca mereceram a minha amizade. 

Às vezes até invento alguma coisa para me distrair. Jogo um jogo de paciência no computador, assisto a um bom filme. 

Sabe que, muitas vezes passei na porta das igrejas mas nunca desejei entrar nelas, mas atualmente entro nelas e participo das celebrações. É o único lugar em que me sinto valorizado e acolhido, logo eu que nunca tive interesse nas coisas que se referem a religiões, agora é o único lugar que realmente encontro companhia para conversar e ter um pouco de alento. 

Outro dia o sacerdote me elogiou, disse que eu sou um homem de bem, que devo agradecer a Deus por estar passando por tantos sofrimentos, porque, como diz ele, “estou purgando os meus pecados”, e isso quer dizer que não levarei para a “vida eterna”, uma alma carregada de excessos de pecados. 

As minhas empresas eu nem sei mais como andam. Elas estão todas nas mãos de administradores que contratei, porque não tenho mais disposição física e mental para cuidar delas. Eu já não tenho mais ânimo para nada... 

Penso em como seria diferente se eu tivesse dado mais atenção às pessoas que me queriam bem, se tivesse respeitado o sentimento das pessoas que realmente me amaram... 

Eu sei que, no fundo, fui eu mesmo o verdadeiro culpado pela sina que me envolve. Com a minha fixação em construir o meu patrimônio e de aproveitar as delícias da vida, eu não tive tempo para mais nada, e para ninguém. Eu julgava importante apenas as pessoas e coisas que me proporcionavam algum tipo de prazer. 

Quase atropelei o próprio tempo, corri contra ele durante a maior parte da minha vida numa corrida desenfreada e sem propósito justo e de valor para a minha vida. 

Se eu pudesse voltar ao passado eu mudaria tanta coisa em minha vida! Tanta coisa! Mudaria os meus valores e viveria apenas um dia de cada vez, sem atropelar o ritmo natural das coisas para construir um patrimônio que hoje, ao olhar para ele eu percebo que não possui nenhum sentido que tenha valido a pena eu perder a minha saúde por ele. 

Desculpe por eu tomar o seu tempo com os meus problemas. Mas é que, eu desejo deixar registrado a minha história de vida, para que outras pessoas não venham a passar pelas mesmas coisas que eu estou passando. 

Um abraço fraterno. 

Eu, o homem que só se importava consigo mesmo 



Rozilda Euzebio Costa

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Como é importante reservarmos um tempo para o silêncio!



É no silêncio que ouvimos a voz da nossa intuição. 

É no silêncio que mergulhamos na essência do nosso eu interno e ouvimos as nossas reais necessidades. 

É no silêncio que descobrimos a importância de estarmos conectados com os reais valores da vida. 

É no silêncio que ouvimos o som real da natureza de todas as coisas. 

O silêncio é um meio de encontrar um caminho de volta para as próprias raízes. 

O silêncio é fundamental para um encontro de si mesmo e para o fortalecimento das nossas estruturas físicas. 

Quando buscamos lugares silenciosos, a nossa audição se torna mais afinada, e ouve o que normalmente não ouviríamos se estivéssemos em meio ao barulho cotidiano da sonoridade do mundo, provocado por pessoas conversando, automóveis e seus motores, música, etc. 

Tudo precisa ter uma medida justa para não perturbar e danificar as nossas estruturas físicas e emocionais. 

O silêncio e o barulho precisam estar em conformidade com a nossa capacidade de gerir e suportar sem que percamos o nosso equilíbrio vital. 

É no silêncio que temos as melhores ideias e tomamos as decisões mais acertadas, porque é mergulhado no silêncio que meditamos melhor a razão e a necessidade das coisas. 

"A palavra é prata, mas o silêncio é de ouro." 


Rozilda Euzebio Costa

sábado, 23 de fevereiro de 2019

O Construtor


Segue um sonho que seja sem tamanho e sem medida,
Vai de encontro a todo céu e a toda terra,
Busque o campo, a matéria, uma massa boa que dê liga,
Encontre um caminho, um meio, uma contrapartida,
Isso é viver,
Isso é humanamente chamado de vida.

Construa rascunhos, desconstrua histórias, vai à lida,
Revire as coisas do avesso, reformule as estruturas,
Segue novos rumos, quebre velhos paradigmas,
Desvende as parábolas humanas, encontre novas saídas,
Isso é viver,
Isso é humanamente chamado de vida.

Desenhe estrelas, um arco-íris no céu, dê a contrapartida,
Seja um mágico, um construtor de novas coisas,
Rabisque uma terra e um campo com crianças a jogar futebol,
Levante paredes, faça uma escola, um parque verde, um lugar de acolhida,
Isso é viver,
Isso é humanamente chamado de vida.

Textualize um conto, um romance, torne a literatura reconhecida,
Componha versos, reversos, faça notas,
Musicalize histórias, melodie céus e terras,
Dê realidade à imaginação, pinte, faça uma escultura, não deixe a arte esquecida,
Isso é viver,
Isso é humanamente chamado de vida.


Rozilda Euzebio Costa
Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea 2017
Além da Terra Além do Céu
07 de Maio de 2017
Chiado Editora

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Quando você é um idiota

Você é um idiota quando não percebe o amor que as pessoas dedicam a você.

Você é um idiota quando acredita que vale mais que os outros, que é mais inteligente que os outros, porque cada um é bom e inteligente no dom que Deus lhe deu.

Você é um idiota cada vez que se envergonha dos mais humildes e se afasta deles, procurando estar no círculo de outros idiotas.

Você é um idiota toda vez que você dá ouvido a conversas fiadas de corredores, transmitidas por outros idiotas que não tem nada mais útil a fazer do que repassar suas idiotices.

Você é um idiota sempre que olha para o seu próximo de cima para baixo, como se você fosse superior a ele. Na escala da vida ninguém é maior que ninguém, pois cada um foi criado na medida certa para a vida.

Você é um idiota, um grande idiota, quando você, achando-se superior, humilha alguém e o menospreza diante dos outros, ferindo-lhe a dignidade.

Você é um super idiota quando você dá crédito para as mentiras de outros idiotas.

Você é um grandiosíssimo idiota quando pensa que somente você pode se expressar a vontade numa roda de conversa, e assim não permite que outras pessoas se expressem de forma livre sem que você as interrompa.

Você é mais que um idiota quando você cria conflitos entre as pessoas de bem, quando você planta as suas ervas daninhas no jardim das outras pessoas que não merecem.

Então, é isso. NÃO SEJA UM IDIOTA.

Rozilda Euzebio Costa
22 de Fevereiro de 2019

Amor por si mesmo

Eu sinto muito tristeza por mim mesma, por todas as vezes que deixei as pessoas me machucarem e me humilharem, sem que eu me defendesse de forma amorosa comigo mesma. Se tem alguém que precisa me amar com todas as forças, esse alguém sou eu mesma. Se eu não tiver amor por mim e me defender das maldades dos outros, como posso exigir que outros me defendam? 

Eu sinto muito, muito mesmo, por todas as vezes que dediquei tudo de mim por outras pessoas e me esqueci de dedicar-me o mínimo do mínimo para promover um sorriso em meus lábios. 

Eu sinto de verdade, um pesar por nunca ter me dedicado amor, quando arranquei de mim o melhor que havia dos meus sentimentos para dedicar a outras pessoas que nunca me disseram uma palavra. Há tudo bem, você irá dizer, temos que amar o próximo. Certo! Mas temos que amar o próximo como a nós mesmos, não é verdade? Então, neste caso, tenho que amar mais a mim em primeiro lugar. O amor precisa primeiramente, transbordar de mim mesma, para então alcançar o próximo. Quem não se ama sofre de solidão. Porque o amor precisa estar em companhia comigo mesmo. Quando me amo o amor já é minha companhia, e a solidão não se aproximará. 

Eu sinto muito pelo tempo perdido tentando alcançar o coração de outras pessoas quando na verdade nunca alcancei o meu próprio coração. 

Eu sinto muito por todas as vezes que chorei por alguém e não chorei por mim mesma, pelas minhas dores e necessidades. 

Eu sinto muito... 


Rozilda Euzebio Costa 
22 de Fevereiro de 2019

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Adeus (The End)



Adeus, adeus amor meu, para nunca mais,
Se for muito triste leres esta palavra,
Eu atesto; é muito mais triste o silêncio que me dás,
A espera de uma promessa não sentida,
A indecisão e o abandono, a indiferença,
O teu medo dos julgamentos sociais.

Adeus, para ti que me foi tão importante,
Se te causa dor leres esta palavra,
Eu atesto; dói muito mais em mim ao escrevê-la,
É uma destruição fatal nas fibras do meu coração,
Um causar de angústias que parece não ter fim,
Como se meu mundo se acabasse neste instante.

Quem sabe, se tudo fosse diferente,
Mas não há caminho entre mim e ti,
Não há ponte, e nem construtores para construí-la,
Há somente um caos em meio ao quase nada,
Um vento tempestuoso bravio e contrário,
E nada, que a este sentimento alimente.

Rozilda Euzebio Costa

sábado, 19 de janeiro de 2019

Despertar



O dia amanhece e há uma orquestra além da minha janela,
Parece um bando de passarinhos em festa a cantar.
Eis que melodias suaves e doces acordes soam lá fora,
Assobios ritmados cumprimentam o sol que vai chegar.

A própria natureza alegre se manifesta,
Numa harmonia doce, serena e sublimar.
Botões preguiçosos de rosas se abrem lentamente,
Não há nenhuma pressa em desabrochar.

Porque a vida segue o seu relógio natural,
Nada vem fora de hora e de lugar.
Eis que ouço o som meditativo do silêncio,
Até mesmo ele sabe se fazer notar.

Há um mistério existente e compreensivo,
No equilíbrio entre a vida e o despertar.
Eis que penso fortemente no meu amado,
Enquanto ainda estou no meu leito a espreguiçar.

E penso – a esta hora o sol da manhã já beijou a sua face,
E ele, em volto a compromissos, já está engajado a trabalhar.
De repente um gato mia na minha janela pedindo ração,
E penso – oh não! Já tenho que me levantar!

Abro a janela com os olhos ainda cheios de sono,
E vejo dois gatos e um cão a me olhar.
Eis que o sol desponta potente no horizonte,
Olho para o relógio e ele não para de funcionar.

Vou para o computador escrever uma poesia,
Eu tenho sempre alguma coisa pra rimar.
Sete, oito, nove horas, meio dia...
O estômago anuncia que já é hora de almoçar.

De repente o corpo anuncia uma moleza e meia,
Talvez ele quer por um instante se deitar.
Afinal, ninguém é mesmo feito de ferro,
É preciso relaxar um pouco e o corpo escutar.

Mas a essas alturas do meu precioso dia,
Eu não posso perder muito tempo sem trabalhar.
Há muitas tarefas a concluir e coisas ainda por fazer,
Mãos à obra, para que essa mesma obra venha a prosperar!

Rozilda Euzebio Costa
12/01/2019

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Mulher, Filha do Universo

Mulher, Filha do Universo


POESIA CONTEMPORÂNEA | LITERATURA | UNIVERSO | EXISTÊNCIA | ORIGEM

Mulher guerreira? Não, não sou,
Mas sei bem me defender dos maus,
Dou a eles o que merecem,
Afinal, o mal precisa ser exterminado!
As armas do bem vencem sempre,
Eu as levo comigo aonde eu vou.

Já destruí muitas esfinges do mal
E pisei também em cabeça de serpente,
Já eliminei muitas feras horripilantes,
Porque caminham comigo Arcanjos do Céu,
Legiões de anjos me cercam, 
De forma espetacular e paranormal.

O vento também é meu amigo,
Aves do céu vem em minha defesa,
As florestas conhecem os meus segredos,
Os rios mudam de lugar para me ver,
Montanhas se elevam em meu favor,
Todos me protegem contra o inimigo.

Quando chamo pelo sol ele se apresenta,
Seus raios luminosos me envolvem,
A lua é minha grande amiga,
As estrelas nunca me deixam triste,
Sou filha muito amada do Universo,
Todo o corpo celeste me acalenta.

Quando eu quero vou a outros mundos,
Minha alma não conhece distância,
Viajo através do tempo e do espaço,
Visito luas prateadas e estrelas brilhantes,
A minha mente não conhece limites,
Eu vou da Terra a Saturno em segundos.

Rozilda Euzebio Costa
15/12/2018

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Em busca do Paraíso


POESIA CONTEMPORÂNEA | LITERATURA | SONHOS | CAMINHOS | DESTINO

Lá, no mais alto dos Universos,
Onde se acredita;
Só exista luz, paz e amor,
Lá, um pouco mais acima
De onde moram astros e estrelas,
Um tanto mais além,
Lá, dizem;
Não existe a escuridão e a dor.
Mas abaixo dele,
Nenhum corpo está livre
Dos dissabores e intempéries do existir,
Não importa que corpo seja,
Se celeste,
Se humano,
Se material ou imaterial,
Tudo é vida criativa,
É parte de uma mesma essência,
Tudo é parte de um mesmo plano,
E prova dos mesmos sentimentos,
Sejam eles de alegrias,
Contemplações,
Remorsos,
Ou tormentos.
Lá, no mais alto de todos os Universos,
Acredita-se que exista
Um Paraíso sem sofrimentos,
Todos esperam um dia alcança-lo,
Astros e estrelas,
humanos e animais,
Até a mais pecadora das criaturas,
Deseja ascender,
Para encontrar o seu Paraíso,
Até mesmo as mais duras pedras,
Estas criaturas consideradas frias,
Que mudam de lugar não se sabe como,
E são consideradas como seres brutos,
Desprovidos de sentimentos.
Mesmo elas... Mesmo elas!
Desejam encontrar o seu Paraíso,
Embora não demonstrem,
Até as pedras sofrem e se ferem,
Ao descerem montanha abaixo,
Ao caírem em profundos abismos,
Vivendo o tormento de seus contratempos.

Rozilda Euzebio Costa

Livros e Relações

A produção de um livro é mais que uma inserção de uma nova obra no setor literário. Ela reúne relações e sentimentos da vida humana dentro d...